Bom dia, caro investidor.
Não sei porquê (ou talvez saiba), mas a Nokia foi uma das empresas mais pedidas pelos subscritores do Prudente, nos últimos tempos…
– (…) e uma nova visita à Nokia e ao seu turnaround plan posto em prática pelo Pekka Lundmark, novo CEO?
– (…) Um concorrente direto ao nível de fornecimento de equipamentos para redes móveis, nomeadamente na tecnologia 5G é a Nokia. Com o plano de exclusão da Huawei na Europa haverá muito negócio nos próximos anos para estas duas empresas. Parece-me que uma análise à Nokia seria relevante.
– (…) Sendo a Nokia a única concorrente ocidental da Ericsson, diria que uma análise à mesma ou uma comparação entre as duas seria super interessante, do meu ponto de vista, já que ambas competem pelo mesmo mercado atualmente ocupado pela Huawei que tem vindo a ser substituída em alguns países ao longo dos últimos anos. Será bastante mais difícil uma análise aos seus concorrentes orientais (Samsung e Huawei).
… principalmente depois de eu ter publicado a primeira análise à Ericson, uma das suas concorrentes:
Os meus 3210 e 3310 deixaram muita nostalgia, mas será que posso dizer o mesmo das acções da empresa?
1. Apresentação
A finlandesa Nokia (HEL: NOKIA; ISIN: FI0009000681), famosa pelos seus telemóveis robustos, é mais antiga do que a maioria das pessoas possa pensar.
A empresa foi fundada em 1865 por Fredrik Idestam, um engenheiro de minas que se dedicava à transformação de pasta de celulose em papel. “Nokia” é o nome da cidade onde estava localizada a sua segunda fábrica. Esta deu origem a uma empresa que, ao longo de 90 anos, operou na indústria florestal e energética. Após algumas reestruturações, a Nokia atingiu um nível de diversificação de produtos elevado: fazia borrachas, cabos eléctricos, rolos de papel higiénico, equipamento militar, telefones, computadores, infra-estruturas de telecomunicações, produtos florestais, pneus (a Nokian Tyres era uma das subsidiárias), etc.
Entre 1997 e 2012, a Nokia foi líder mundial no mercado de telemóveis (em 2008 chegou a deter 40% do marketshare), mas o advento do iPhone e do Android destruiu-lhe o pódio. A empresa ainda tentou melhorar o Symbian e lançar MeeGo (dois sistemas operativos mobile desenvolvidos in-house), além de embarcar o Windows Phone da Microsoft desde 2011, em regime de exclusividade, mas as vendas de telemóveis continuaram a cair a pique, levando a empresa a grandes prejuízos.
No dia 3 de Setembro de 2013, a Nokia vendeu a sua divisão de dispositivos móveis à Microsoft por cerca de $7,2 B. Cheguei a ter um Nokia Lumia (posteriormente renomeado para “Microsoft Lumia”), que era mais fluido e estável do que o Android, mas vendi-o pouco tempo depois por sofrer com a falta de aplicações. Isso ditou a morte do Windows Phone.
Entretanto, a Nokia passou a dedicar-se ao desenvolvimento de redes de telecomunicações, ao HERE (divisão de mapas para GPS’s) e à administração de patentes e licenças, tendo lançado vários basic phones, dispositivos com Android, entre outros produtos.
Hoje, a empresa tem quatro segmentos operacionais – (1) Network Infrastructure, (2) Mobile Networks and Cloud…

… (3) Network Services e (4) Nokia Technologies:

A saber:
- Network Infrastructure – desenvolve infra-estruturas de redes para uma ampla gama de clientes corporativos e governamentais, tais como dispositivos de rede fixa, roteamento IP, redes de data centers e redes ópticas terrestres e submarinas.
- Mobile Networks and Cloud – cria produtos e serviços que abrangem todas as gerações de tecnologia móvel, tais como redes de acesso de rádio (RAN) e micro-ondas de rádio (MWR), implantação de redes e serviços de suporte técnico, etc.
- Network Services – procura introduzir e monetizar as redes 5G, as plataformas de software na cloud e a transição para modelos as-a-Service.
- Nokia Technologies – gere o portefólio e a monetização da propriedade intelectual da Nokia, incluindo patentes, tecnologias e a marca “Nokia”.
As vendas apresentam uma boa diversificação geográfica…

… mas os clientes estão muito concentrados no sector dos serviços de telecomunicações:

2. Principais Accionistas
A acção está cotada em três bolsas…
Stock tickers:
- Nasdaq Helsinki (since 1915) – NOKIA
- New York Stock Exchange (1994) – NOK
- Euronext Paris (2015) – NOKIA
… e a maior accionista é uma sociedade de investimentos filandesa – a Solidium:
- Solidium Oy – 5,71%
- Norges Bank Investment Management (NBIM) – 3,35%
- The Vanguard Group – 2,73%
3. Gráfico de Longo Prazo e Dividendos
Em 2012, a empresa esteve prestes a falir, tendo depois recuperado um pouco, mas a tendência de longo prazo é descendente:

A tendência dos dividendos também é descendente – a mediana a 5 anos (€0,06) proporciona um dividend yield de apenas 1,8%.

4. Evolução do Número de Acções e Valor de Mercado
Nos últimos anos, tem havido algumas recompras de acções próprias, mas, nos últimos 20 anos, o número de acções aumentou 18%:

A empresa vale menos de €20 B, mas já valeu mais de €220 B em bolsa.
5. Informação Financeira
O efeito do lançamento do iPhone original (2G), em Janeiro de 2007, nota-se na quebra da receita. Nos últimos anos, a receita tem crescido timidamente…

… e o lucro líquido tem vindo a recuperar para novos máximos (descontando 2006 e 2007), apesar dos prejuízos recorrentes:

As margens de lucro…
- Margem bruta (5y): 37%
- Margem líquida (5y): 0%
… e as taxas de retorno sobre o capital são baixas…
- ROE (5y): 0%
- ROCE (5y): 4%
… apesar da mediana a 30 anos do retorno sobre o capital próprio estar acima de 22%.
O endividamento é reduzido. Aliás, a empresa apresenta net cash recorrente:

6. Desenvolvimento
As perspectivas relativas às vendas de 2023 foram reduzidas de €24,6 B – €26,2 B para €23,2 B – €24,6 B, devido à deterioração dos sinais macroeconómicos.
Apesar disso, o Grupo acredita que esses impactos têm um carácter de curto prazo e que no futuro há oportunidades de crescimento nos negócios com os clientes corporativos. No segmento das redes móveis ainda existe necessidade substancial das operadoras investirem em 5G, estando apenas aproximadamente 25% das potenciais estações 5G de banda média implementadas fora da China.
Estes catalisadores justificam as perspectivas de crescimento dos analistas até 2025…

… mas o yield proporcionado pelo net payout (dividendos + buybacks) mediano dos últimos 5 anos é bastante reduzido:

7. Conclusão
Apesar do renome associado à marca “Nokia” e do catalisador positivo das redes 5G, esta empresa apresenta baixos retornos sobre o capital, baixas margens, prejuízos recorrentes e dividendos reduzidos.
É certo que o capital próprio da empresa tem crescido na última década, mesmo deduzindo os dividendos que a empresa paga de forma intermitente, e que preço está abaixo dos valores normais de mercado, como indica a mediana do price-to-book (a vermelho)…

… mas não encontro vantagens competitivas duradouras que justifiquem a permanência da Nokia na Lista Completa de Acções do Prudente. É certo que a corrida ao 5G traz oportunidades de crescimento, mas não encontrei factores que possam elevar a Nokia à liderança nesse segmento de negócio.
Continuarei a acompanhar este mercado. Se não houver informações adicionais que me façam reconsiderar a minha opinião conclusiva, excluirei a Nokia da nossa lista de acções.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.