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Como criar uma carteira de acções para os seus filhos?

Artigo escrito por Gil Dias

 

Como criar uma carteira de acções que paguem dividendos para o seu filho(a)?

Como passar a titularidade das acções para o nome dele(a) quando atingir a idade adulta?

Estas foram algumas das minhas questões no início de 2023, quando comecei a debruçar-me sobre o investimento em acções com o objetivo de receber dividendos crescentes ao longo do tempo (um tipo de investimento referido em inglês como Dividend Growth Investing).

Existem duas maneiras de ganhar dinheiro com acções:

– Comprar a um preço e vender a um preço mais alto;
– Receber dividendos das empresas das quais possuímos acções.

Os dividendos são uma parte dos lucros obtidos por uma empresa que são entregues aos seus acionistas, como uma forma de retribuição ao investidor pelo capital investido. Esta remuneração é proporcional ao número de ações detidas pelo accionista.

Sou apaixonado pelos mercados financeiros e comprei as minhas primeiras acções em 2006, altura em que comecei a ler sobre o tema, essencialmente acerca de Análise Técnica (um tipo de estudo das acções em que o analista se baseia essencialmente na análise do gráfico da acção, procurando padrões gráficos que tendem a repetir-se ao longo do tempo e conseguindo assim prever os póximos movimentos das cotações). Desde aí tive momentos em que investi e momentos em que estive fora dos mercados, mas estive sempre maioritariamente focado, até ao início deste ano, em Trading (compra e venda rápida).

Infelizmente, mas mais vale tarde que nunca, apenas no início de 2023 me foi apresentado o conceito do Dividend Growth Investing e fiquei muito atraído pelo tema.

Mais entusiasmado fiquei quando pensei que poderia começar a investir por este método para os nossos filhos: o poder deste tipo de estratégia está no efeito composto, ou seja, em reinvestir os dividendos que recebemos e ao mesmo tempo ir reforçando as compras com mais capital de um modo sistemático e programado ao longo do tempo.

Como o valor dos dividendos que recebemos é dependente do número de acções que temos e não do valor das acções, quanto mais acções tivermos, maiores os dividendos  recebidos. Por isso a ideia é ir comprando o maior número de acções possível ao longo do tempo, sendo as crises um excelente momento para “ir às compras”, dado que o preço das acções está baixo (e por isso conseguimos com o mesmo montante comprar um maior número de acções).

É de referir que este não é um investimento do tipo “ficar rico rápido”, se é que isso existe. A ideia é investir durante várias décadas, ou até o investidor estar satisfeito com os retornos anuais.

Gostaria de ter começado este tipo de investimento aos 20 anos, mas para os nossos filhos podemos começar desde o nascimento, aos 5, 10 ou 15 anos. O fator composto (reinvestimento/acumulação de acções ao longo do tempo) começando cedo é realmente incrível.

Enquanto lia sobre como investir em empresas que pagam dividendos, quais as melhores, quais os critérios de selecção, o que é importante ter em conta ao seleccionar uma empresa para comprar, surgiu a questão: vou iniciar este tipo de investimento para os meus dependentes, mas, não posso abrir conta em nome deles porque são menores.

Só quando atingirem 18 anos é que poderão abrir conta numa corretora e comprar acções em nome deles.

Como faço para que todas as acções compradas até que eles façam 18 anos passem para o nome deles? Não pretendo vender as acções nessa altura e depois transferir o dinheiro para eles, pois com a venda podemos perder dinheiro (por exemplo uma das acções que comprei é a 3M que está perto dos 90 USD por acção atualmente, mas daqui a 12 ou 15 anos pode estar a 20 ou a 30 USD, e se tiver de a vender, vou perder dinheiro na venda).

Gostava simplesmente de mudar a titularidade das acções de nós, os pais, para eles.

Comecei o contacto com algumas corretoras existentes em Portugal (as que apresentam comissões mais baixas, dado que ao longo dos anos serão muitas transações) para perceber se o que eu pretendia era possível. Todas informaram que não é possível mudar a titularidade das acções, para além de não ser permitida a abertura de contas para menores.

Nos Estados Unidos existem as chamadas Custodial Accounts, o que torna o processo muito simples. Nestas contas, supervisionadas e operadas por um adulto, normalmente os pais, o menor é co-titular e quando atinge a idade adulta passa a ser o titular principal, sendo que estas contas permitem fazer investimentos em vários instrumentos, nomeadamente a compra de acções. No entanto, E após contactar algumas das principais corretoras norte-americanas, percebi que este tipo de contas só se aplica a residentes dos EUA.

Entretanto descobri algo novo para mim também: como o mercado onde eu pretendia investir era o norte-americano, percebi que podemos comprar ações diretamente às empresas através de agentes das mesmas, não sendo necessário uma corretora, ou broker.

Muitas empresas, através destes agentes, possuem um DRIP (Dividend Reinvestment Plan), um plano em que os dividendos são automaticamente utilizados para reinvestir, ou seja, usar esse dinheiro para comprar mais acções da mesma empresa. Fiz uma lista inicial das empresas nas quais queria investir e pesquisei se estas tinham agente. A maioria sim, e após ler os panfletos das mesmas fiquei ainda mais agradado com o facto de se poder transferir a titularidade das acções! Havia aqui uma hipótese.

No entanto, após analisar as comissões, embora uma ou outra empresa tivesse comissões gratuitas, em grande parte delas havia custos de abertura ou de compra de acções que não eram propriamente muito baixos. Além disso, para cidadãos residentes fora dos EUA a burocracia pareceu-me demasiado grande, inclusive em algumas tínhamos de imprimir uma série de documentos de adesão e enviar por correio para os EUA. Noutras já deveríamos ser detentores de acções dessas empresas e deveríamos fazer a transferência das mesmas a partir da nossa corretora, embora não fosse possível fazê-lo a partir de qualquer uma. Achei que deveria haver um método mais simples. A título de curiosidade, refiro aqui que os principais agentes são o Computershare e o Shareowneronline.

Após uma larga pesquisa de brokers americanos e europeus, descobri que a Interactive Brokers, uma das maiores corretoras norte-americanas, permitia abertura de conta a cidadãos portugueses, coisa que não era possível para as restantes grandes corretoras como a Fidelity, Charles Schwab ou TD Ameritrade.

Iniciei então uma série de questões por email / telefone e no live chat da Interactive Brokers, e um dos agentes sugeriu algo que poderia corresponder ao que pretendia: esta corretora tem um tipo de conta chamado Family Advisor, dentro da qual podem ser abertas várias sub-accounts.

Segundo eles, as posições existentes numa sub-account podem ser transferidas para outra sub-account, com titular diferente, não havendo assim necessidade de vender as acções. Existe um gestor principal da Family Advisor, responsável por todas as transacções das sub-accounts, e as posições detidas podem ser transferidas entre sub-accounts. Resumidamente podemos ter várias contas com titulares diferentes dentro de uma só, e transferir as posições existentes de uma conta para outra, ou seja, de um titular para outro. Decidimos avançar.

Como criar uma carteira de acções para os seus filhos_Interactive_Brokers

Com esta informação, criamos uma Family Advisor, da qual eu e a minha esposa somos administradores, e posteriormente uma sub-account para os meus investimentos e outra sub-account para os investimentos da minha filha mais velha. Quando ela atingir a idade adulta, o plano é criar uma nova sub-account em que ela é a titular e transfiro as posições que abri com o dinheiro dela ao longo destes anos para a sub-account dela.

Tinha o nosso objetivo cumprido. Estamos satisfeitos com o processo até então e em breve farei o mesmo para a minha filha mais nova.
Agora é esperar que o plano funcione, que tome as melhores decisões de investimento ao meu alcance ao longo dos anos e que corra o melhor possível.

Sei que nem todos têm este objetivo ou esta filosofia. Por outro lado muita coisa pode mudar numa década. Sei também que algumas pessoas investem o dinheiro dos filhos sem nunca pretender mudar a titularidade, pois sabem que “o que é meu é meu e o que é deles é deles”, e é perfeitamente válido.

Creio que Portugal deveria permitir algo como as Custodial Accounts existentes nos Estados Unidos, ou pelo menos aumentar o leque de opções de investimento para menores, e parece-me que será assim no futuro, dado que cada vez mais pessoas e mais cedo na sua vida se interessam por investimento em acções.

Gostamos da ideia de dar uma “alegria” aos nossos dependentes por possuírem acções em nome deles mal se tornem adultos. Achamos também que comprando acções (em vez de investir num PPR ou ETF) e ser dono de uma pequeníssima parte de várias empresas é um conceito mais engraçado, que nos faz sentir mais próximos das empresas e torna o processo mais “real”. É uma opção minha e da minha esposa.

Resolvemos que era este o caminho. Elas ainda são pequenas para entender, mas creio que um dia vão gostar de perceber e, espero, agradecer.

Nota: O conteúdo deste artigo não é uma sugestão de investimento. Todo o tipo de investimento apresenta risco. Por favor faça a sua análise antes de qualquer investimento e confirme todas as informações por si mesmo, dado que as condições oferecidas pelas corretoras mudam constantemente.

 

 

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