A melhor estratégia de investimento (e saída da 3M)

Bom dia, caros investidores.

Voltei de férias, mas não estive parado. Para mim, “férias” é mudar de actividade, não é ficar sem fazer nada. Além de ter visitado umas belíssimas catedrais e parques naturais com a minha mulher e os meus filhos (dois na terra, um no céu e outro na barriga), aproveitei para ler uns livros sobre consolidação de contas (um assunto de extrema importância para qualquer investidor em bolsa), entre outros. Li também o livro do maior investidor inglês da actualidade (Terry Smith), que recomendo a todos os investidores Prudentes (e do qual já vou falar):

A melhor estratégia de investimento (e saída da 3M) 1 | Investidor Prudente

Hoje tinha planeado lançar uma análise à A. P. Moller Maersk, mas terá de ficar para amanhã, pois agora necessito de analisar a questão do Split-Off Exchange Offer e dos litígios em tribunal relacionados com os combat earplugs (tampões de ouvido de combate) da 3M, e mostrar como vai ficar o novo formato da Lista Completa de Acções do Mês do Prudente. Mas antes gostaria de falar sobre a melhor estratégia de investimento em acções.

Melhor estratégia de investimento em acções

Como ensina Warren Buffett, Charlie Munger, Bruce Greenwald (sucessor de Benjamin Graham no curso de value investing da Columbia University), entre outros, só há duas formas de superar (de forma sustentável) os índices de mercado a longo prazo, sem contar com os métodos não acessíveis à maioria dos investidores (algorithmic trading, high-frequency trading, etc.). Eu só conheço duas abordagens, e já li (e pratiquei) muita coisa nos últimos 20 anos; se conhecer uma terceira via, avise-me. As duas estratégias são:

  • Comprar empresas estatisticamente baratas (principalmente pontas de charuto e deep value stocks); como diz Bruce Greenwald, «you are looking for things that are ugly, cheap, boring, out of fashion, small and obscure»:

  • Comprar empresas de grande qualidade e elevados retornos sobre o capital a bons preços (a abordagem do Prudente); priorizar a qualidade sem pagar um preço demasiado alto, como ensina Warren Buffett, Charlie Munger e Terry Smith, o maior gestor de fundos do Reino Unido, que até há pouco tempo geria uma carteira com 20-30 empresas com um desempenho superior a 18% ao ano (em termos compostos), desde a fundação do seu fundo em 2011:

Há muitos outros vídeos interessantes dele no youtube

… além dos dois livros que publicou:

Terry Smith

Eu li de forma inspeccional os dois livros, principalmente este último, sobre o qual gostaria de dizer umas palavras.

O livro é uma compilação de artigos e cartas aos membros do Fundsmith (o seu fundo de 20-30 empresas de elevada qualidade). Entre as várias ideias lá expostas, destaco as seguintes:

  • Terry Smith analisa a história da Great Depression de 1929, que está muito mal contada, enviesada por certos interesses políticos. “Aqueles que não conhecem o passado, estão condenados a repeti-lo”.
  • Indicou as suas dez regras de investimento: conhecer a empresa, não fazer market timing, não pagar altas comissões, negociar com pouca frequência, comprar empresas de alta qualidade que possam ser geridas por idiotas, etc.
  • Sublinhou o foco no retorno sobre o capital (ROE, ROIC, ROCE e ROA). No Fundsmith, Terry Smith só investe em empresas com elevado return on capital employed, embora considere no numerador a mediana do caixa operacional, em vez do lucro operacional (tal como o Prudente, gosta de dinheiro vivo e não de estimativas contabilísticas).
  • O primeiro critério de selecção de empresas do Fundswmith visa a qualidade da empresa, e só depois é que procura não pagar um preço demasiado alto, usando para isso o simples free cash flow yield (mínimo de 5%), ignorando as projecções de fluxos de caixa descontados. Fiquei feliz ao saber disso, pois essa é a abordagem que usamos no Prudente (yields não inferiores a 4%, preferencialmente superiores a 6%).
  • Ele não investe em bancos, seguradoras e noutras empresas de baixo ROCE.
  • Tal como eu, considera importantíssimo conhecer minimamente a linguagem dos negócios – a contabilidade.
  • Apontou o problema de alguns ETFs (principalmente os sintéticos).
  • Etc.

 

Se depois quiserem saber mais sobre a abordagem do Terry Smith, peçam-me na caixa de comentários.

Lista Completa de Acções do Prudente (novidades em Setembro)

Ao ver as apresentações das reuniões do Fundsmith, reparei que os diapositivos mostravam sempre o retorno sobre o capital das 20-30 empresas que ele tem no fundo. E eu pensei: «acho que os subscritores do Prudente iriam gostar de ver o retorno sobre o capital de todas as acções analisadas». Por isso, adicionei mais duas colunas…

A melhor estratégia de investimento (e saída da 3M) 2 | Investidor Prudente

… uma com o ROE mediano e outra com o ROIC mediano. Vou demorar algum tempo até calcular manualmente os rácios de todas as empresas da lista. Há várias formas de calcular estes rácios; na tabela, eu realizo o cálculo da seguinte forma:

  • ROE (5y) = Shareholders Net Income (mediana a 5 anos) / Shareholders Equity (último ano)
  • ROIC (5y) = Operating Income (mediana a 5 anos) / [Shareholders Equity + Minority Interest + Total Debt] (último ano)

 

Quando o ROE é superior a 15% e o ROIC é superior a 10%, os valores aparecem destacados a azul, pois são fortes indicadores de qualidade (é evidentemente que isto não dispensa a análise individual). As empresas que recorrentemente possuem mais de 15% de ROE e/ou mais de 10% de ROIC são candidatas ao lugar de «Acção do Mês». As empresas que apresentem um ROE inferior a 10% são candidatas à exclusão da lista (excepto aquelas que apresentam um capital próprio negativo devido aos buybacks… essas normalmente têm um ROIC elevado; é por isso que adicionei esses dois rácios). Só queremos as melhores empresas, a bons preços. Como ensina Charlie Munger:

Over the long term, it’s hard for a stock to earn a much better return that the business which underlies it earns. If the business earns six percent on capital over forty years and you hold it for that forty years, you’re not going to make much different than a six percent return – even if you originally buy it at a huge discount. Conversely, if a business earns eighteen percent on capital over twenty or thirty years, even if you pay an expensive looking price, you’ll end up with one hell of a result.

Charlie Munger

Já agora, o conjunto de todas as doze «Acções do Mês» escolhidas até agora apresentam as seguintes características:

  • Net Payout Yield (5y): 6,55%
  • ROE (5y): 25%
  • ROIC (5y): 20%

 

São excelentes fundamentos!!!

Split-Off na 3M

Agora vamos ao Split-Off Exchange Offer da 3M (a data limite está próxima – 31 de Agosto de 2022):

3M Commences Split-Off Exchange Offer for Food Safety Business
August 4, 2022

Split-Off? Mas que coisa é essa? Para começar, podemos defini-lo como uma cisão (uma separação) entre uma empresa-filha e a sua empresa-mãe, mas não devemos confundir o split-off com o spin-off

Spin-Off vs. Split-Off vs. Carve-Out: What’s the difference?

… que, apesar de serem métodos semelhantes de cisão, apresentam algumas peculiaridades. No split-off, os accionistas da empresa-mãe podem escolher entre obter acções da subsidiária que se vai separar do grupo (filha) e manter as acções da controladora (a empresa-mãe). Espero que esta explicação esteja minimamente clara.

Neste caso, os accionistas da 3M poderão trocar todas ou algumas das suas acções por acções da SpinCo, que posteriormente serão convertidas em direitos de compra de acções da Neogen, num processo complicado chamado Reverse Morris Trust (basicamente é um esquema utilizado para não pagar impostos).

Aqui no Prudente vou optar por não aceitar a oferta de troca (que, normalmente, é a opção padrão; ficar quieto na corretora). Ora vejamos… a 3M apresenta os seguintes fundamentos:

  • Net Payout Yield (5y): 5,2%
  • ROE (5y): 36%
  • ROIC (5y): 22%

 

São óptimos!

Já os fundamentos da SpinCo (e da nova Neogen) são uma incógnita. Serão melhores do que os da 3M? Duvido! Os bancos de investimento ganham rios de dinheiro para pintar a noiva de branco para o casamento, e, sem a maquilhagem, a noiva (Neogen) fica mais feia. Normalmente é assim, mas teremos de esperar pelos factos (outra lição que Terry Smith ensina: mais factos, menos expectativas).

Algumas corretoras ainda não enviaram as informações aos investidores que desejam realizar a troca. Outras já enviaram a informação há várias semanas. Por exemplo, a Degiro só enviou a informação na passada sexta-feira à tarde, apresentando um prazo limite até 30 de Agosto de 2022 às 11:00.

Litígios em tribunal e saída da 3M da lista de «Acções do Mês»

Na passada sexta-feira, as acções da 3M encerraram a cair 9,54%, apesar de estarem a subir 0,5% desde a entrada para a lista de «Acções do Mês» (que eu espero que venha a ter um máximo de 30 empresas).

O que aconteceu?

Inicialmente, eu pensei que a subsidiária da 3M responsável pelos tampões de ouvido de combate – a Aearo Technologies – iria pedir a insolvência e que a 3M iria perder uns $1.200 M em indemnizações, mas na sexta-feira ficamos a saber que o juiz Jeffrey Graham disse “não” ao plano de insolvência proposto pela 3M:

3M Statement Regarding Bankruptcy Court Decision

Qual é o problema?

O juiz quer estender a responsabilidade da Aearo Technologies à 3M: no mês passado, a Aearo entrou com um pedido de insolvência que lhe permitiu suspender os processos de indemnização pendentes, mas o juiz determinou que a 3M (que não entrou com um pedido de insolvência) não tem direito a essas suspensões:

3M Cannot Use Bankruptcy to Halt 230,000 Suits, Judge Says

A Aearo Technologies e a 3M discordam da decisão do juiz e vão agora recorrer da decisão, mas J.B Heaton, um especialista em insolvências corporativas, diz que as 230.000 ações judiciais podem levar a empresa-mãe (3M) à falência, podendo o custo das indemnizações superar os $100 B (mais do que o valor de mercado da 3M):

“It is more and more likely within the next three several years we’ll see a 3M bankruptcy (…)”

Será que estes últimos spin-offs e split-offs estão relacionados com o risco de falência? Não sei, mas é possível. Uma empresa desta dimensão com uma história centenária, muito lucrativa, que paga dividendos e gera fluxos de caixa crescentes há décadas, FALIR? Isto seria chocante! É uma situação rara.

Vender acções não é a inclinação natural do Prudente, mas, como o seu objectivo principal é salvaguardar o investimento inicial, a venda antecipada pode ser sempre considerada. A 3M não se enquadra mais no propósito do Prudente, devendo sair da lista hoje (dia 29 de Agosto de 2022) à cotação de fecho. É pena ser obrigado a realizar estes movimentos antes do portefólio do Prudente estar completo (gostaria que tivesse um máximo de 30 empresas), mas actualmente considero que o risco é demasiado elevado.

 

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

Disclaimer

Esta publicação é para efeitos meramente informativos e educacionais e não deverá ser entendida como uma recomendação para comprar ou vender acções.

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Consulte o Disclaimer completo do Investidor Prudente.

2 respostas

  1. Boa tarde Helder,

    Sim gostaria de saber mais sobre este senhor. Confesso que não conhecia, gostei do video e da postura que apresentou.

    Um abraço

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